Entrevista com Julio Lacerda

A entrevista de hoje é com um paleoartista fantástico, o Julio Lacerda. O Julio faz parte de vários projetos legais como o Pteros, o Earth Archives e o Studio 252MYAque tenha uma loja fantástica que recomendo muito dar uma conferida (não resisti e tive que comprar a camiseta “I left my heart in the Cretaceous“).

Designer gráfico e ilustrador digital, ele contou um pouco sobre sua profissão e seus projetos. Confira a seguir a entrevista e não deixe de fazer uma visitinha a cada um dos projetos, são todos de qualidade e relevância.

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A maioria dos amantes de dinossauros descobre sua paixão ainda na infância, seja vendo um filme, um livro, um álbum ou brinquedo, algo que, por algum motivo, enche de curiosidade e desperta o interesse. Como surgiu seu interesse pelos animais pré-históricos? Foi algo que aconteceu gradualmente ou houve um evento que mudou tudo para você?

Julio: Não sei dizer o que me deu o pontapé inicial; desde muito pequeno gosto de todo tipo de animais inclusive dinossauros. Mas lembro que meu interesse se tornou mais forte depois de assistir a série de documentários Walking with Dinosaurs da BBC, quando tinha cerca de 6 anos. Daí em diante comecei a colecionar revistas e livros, e os incluía bastante em meus desenhos. Uma segunda onda aconteceu quando descobri diversos paleoartistas na internet alguns anos depois, um dos fatores que me fez aprender arte digital e acabou dando início a minha carreira profissional.
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Troodon: as características avianas e reptilianas que tanto atraem Julio. Ilustração de Julio Lacerda.
Não poderia deixar de perguntar: qual é o seu dinossauro favorito e por quê?
Julio: Não saberia te dizer uma espécie em particular, mas sempre gostei bastante daquelas próximas ao surgimento das aves: os dromeossauros, troodontídeos, oviraptores, etc. O conjunto de características avianas e reptilianas me intriga bastante, e imagino o quão familiares e ao mesmo tempo exóticos eles pareceriam ao vivo.
Você iniciou seus trabalhos como paleoartista bem cedo. Foi fácil perceber que era essa a área onde gostaria de trabalhar?
Julio: Eu jamais imaginei que conseguiria transformar esse hobby numa profissão. Nunca fui bom em ter metas e objetivos a longo prazo, por isso sempre tive dificuldade em escolher uma profissão quando era jovem. Desenhar sempre foi uma grande parte da minha vida, mas não achava que era possível viver disso. Até que um dia vi que as pessoas estavam interessadas em adquirir minhas ilustrações e que poderia tentar ganhar algum dinheiro com isso, e a coisa foi evoluindo organicamente até que me vi como um artista profissional. Acho que no fundo sempre soube que esta seria uma área que me traria realização, mas demorei a perceber que poderia realmente trabalhar com isso.
O papel do paleoartista é retratar com o máximo de realismo possível o ambiente e as espécies que estão sendo ilustradas. Para garantir que uma espécie está sendo ilustrada de modo acurado, qual é o processo que você utiliza para a concepção da ilustração? É necessário ler artigos? Mais de uma fonte? É necessário ter algum conhecimento de biologia?
Julio: Eu acho que trata-se de um conhecimento cumulativo. Cada vez que eu quero representar alguma espécie, especialmente alguma com a qual não sou muito familiar, busco o máximo de informações possível sobre a anatomia e comportamento do animal e tento traçar paralelos com espécies atuais que possam oferecer algum tipo de referência quanto a cores, postura etc, e depois de tanta pesquisa alguns aspectos tornam-se intuitivos. A paleoarte é um gênero que une expressão artística com conhecimento científico, portanto um bom paleoartista deve ter boas noções em ambas as áreas; tanto composição e harmonia de cores quanto anatomia, biologia e ecologia.
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Therizinossauro, ilustração de Julio Lacerda.
Você faz parte de projetos como o Studio 252MYA, o qual conta com artista como Joschua Knüppe, Fabrizio De Rossi, Nathan E. Rogers, Lucas Lima e Oliver Demuth. Conte um pouco do que se trata o estúdio, de onde surgiu a ideia e como é ser o artista principal.
Julio: O Studio 252MYA é basicamente um coletivo formado por paleoartistas de diversos países que buscam compor um portfolio conjunto, abrangendo diversas espécies e temas diferentes. A ideia surgiu porque vimos que, especialmente nessa era digital, muitas publicações científicas de grande e pequeno porte fazem uso de imagens licenciadas pela internet. É mais fácil e barato adquirir ilustrações através de um banco de imagens qualquer do que contactar artistas profissionais para produzir arte original. Mas o resultado disso é que muitas vezes essas imagens não são de boa qualidade, ou não representam o que há de mais novo em termos de conhecimento científico, e isso não só compromete o potencial educativo como também exclui artistas que realmente se dedicam ao seu trabalho e não conseguem a oportunidade de vê-lo em meios de circulação. Nosso objetivo então é reunir paleoarte de qualidade, tanto artística quando científica, em um único lugar onde editoras e produtores de conteúdo possam facilmente encontrá-la. Desde que esse projeto começou, tive a oportunidade de produzir ilustrações sobre diversas espécies e conceitos que normalmente não pensaria em fazer, por conta da demanda que temos. Nesse sentido o Studio acabou ampliando bastante meus horizontes.
Fale mais sobre sua participação nos projetos Pteros e Earth Archives.
Julio: Todos esses projetos, que contam em grande parte com a mesma equipe, surgiram com o mesmo ideal básico de difundir conhecimento sobre ciência e paleontologia de forma atualizada e confiável. Enquanto Earth Archives foca em divulgar artigos e notícias sobre tudo que envolve meio ambiente e ciências naturais, Pteros nasceu como um protótipo de enciclopédia digital reunindo todo o conhecimento que existe sobre os pterossauros. Todos esses projetos tem tido uma maravilhosa aceitação desde que foram concebidos, e por isso estamos sempre pensando não só em formas de expandi-los e aperfeiçoa-los como também em novos projetos semelhantes que possam conversar entre si, como websites que tratam de outros aspectos da ciência e enciclopédias digitais focando em outros grupos de animais.
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Zhongjianosaurus, umas das ilustrações de Julio como parte da equipe do Studio 252MYA.
Qual foi o trabalho que mais gostou de fazer e por quê?
Julio: Essa é uma pergunta difícil de responder, porque a cada ano surge um novo trabalho que para mim supera os anteriores. Mas com certeza dois trabalhos que me deixaram muito orgulhoso foram as duas publicações nacionais que participei, ambas envolvendo o professor Luiz Eduardo Anelli: “Dinossauros e Outros Monstros” e “Almanaque dos Dinossauros“. Foram alguns dos maiores projetos em que já me envolvi devido ao grande número de ilustrações, e me deixaram muito feliz por me darem a oportunidade de contribuir com a educação de crianças e adolescentes. Talvez até inspirá-los da forma que outros artistas me inspiraram quando eu era mais jovem!
Que conselho você dá para quem quer se tornar paleoartista?
Julio: Dedicação e auto-promoção! Primeiramente pratique, estude e se dedique. Sempre busque por referências, tanto do ponto de vista artístico como científico, para se tornar um paleoartista completo. Observe esqueletos e animais vivos, se possível pessoalmente, e tente entender como os organismos funcionam e quais as funções que certas características desempenham em propagar a sobrevivência desses animais. Utilize todo o conhecimento que está ao seu alcance mas também use suas próprias observações pra pensar fora da caixa e ter ideias inovadoras. E exponha sua arte! Aproveite que vivemos numa época em que todos nós podemos ter nossa própria plataforma através da internet. Não tenha vergonha de colocar suas ilustrações à vista, fazer contatos com outros artistas, participar de concursos e buscar reconhecimento.

 

Julio Lacerda no Facebook: https://www.facebook.com/art.julio.lacerda/

Blog pessoal “The Casual Paleoartist: paleoart.tumblr.com

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