Entrevista com Vitor Silva

A Paleoarte é um assunto recorrente aqui e faço questão de procurar valorizar os profissionais dessa arte, pois é graças a eles que conseguimos imaginar como seriam os dinossauros, onde viveram e, se o paleoartista for competente e compromissado, até observá-los em seus hábitos, dietas e dilemas.
Entrevistei o Vitor Silva, paleoartista sempre presente nas ilustrações que permeiam tanto o blog quanto nossas redes sociais. O Vitor é ilustrador, escultor e trabalha tanto com o digital quanto com os métodos tradicionais.
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O paleoartista Vitor Silva.
Confira a entrevista:
Seu trabalho envolve principalmente ilustrações. Você sempre desenhou desde criança ou isso veio por algum interesse que desenvolveu depois de mais velho?
Vitor: Foi um interesse que me acompanha desde criança, surgindo como uma brincadeira apresentada e incentivada cedo pela família, o que considero ter sido muito importante. Uma das atividades que mais me divertia era pegar folhas, lápis ou canetinhas e desenhar, na maioria das vezes, os animais que via na TV e nos livros. Ainda que considerasse me tornar um desenhista ao longo da infância, a noção mais séria da ilustração como um trabalho e o foco de se especializar e aprimorar se intensificou mais tarde, na adolescência.
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Mapusaurus roseae.
O interesse por Paleontologia e Animais Pré-históricos surgiu antes, depois ou junto com a paixão pela ilustração?
Vitor: Comecei a “rabiscar” antes de conhecer os animais pré-históricos, mas ambos os interesses apareceram em mim ainda bem novo. Foi um intervalo pequeno entre começar a desenhar e conhecer os dinossauros, então desde cedo um fascínio impulsionava o outro.
A Paleoarte é um tipo específico de arte e, como tal, exige um processo também específico. Pode falar sobre como é o seu processo de criação? O que vem antes, a ideia, o estudo, o conceito? 
Vitor: Realmente, realizar um trabalho de paleoarte carrega etapas específicas que diferenciam essa categoria, e a principal singularidade está em incorporar o rigor científico. Para isso, toda a produção em si do trabalho é antecedida por bastante pesquisa para reconstruir a anatomia e a ecologia dos organismo e os aspectos dos ambientes.
Usando como exemplo algo clássico, um dinossauro ilustrado com cenário: busca-se informação para fundamentar a reconstrução das proporções do corpo, a postura, a musculatura e o tegumento, além de seus possíveis comportamentos. Muito raramente tudo isso é conhecido em um único animal pré-histórico, então, para preencher as lacunas, recorre-se também ao que se sabe sobre seus parentes próximos e à observação e comparação de animais viventes. O mesmo é feito para o ambiente, e pesquisa-se a flora, a fauna, o clima e o terreno adequados para a representação do cenário.
Há também uma ferramenta na especulação, seja ela empregada para suprir a falta de conhecimento sobre um dado elemento ou para cobrir aquilo que não se preserva nos fósseis (por exemplo, um determinado comportamento). Ainda assim, mesmo o especulativo deve ser, idealmente, bem fundamentado e justificável.
Uma vez que essa pré-produção é estabelecida, a execução do trabalho leva técnicas e métodos artísticos comuns a outros ramos de ilustração, pintura, modelagem etc.
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Camptosaurus dispar.
Fale um pouco sobre a sua formação, os cursos que fez, sobre como eles te ajudaram no desenvolvimento das suas habilidades.
Vitor: Fiz meus primeiros cursos quando estava próximo do fim do ensino médio, sendo um de Informática – Módulo TI, onde aprendi a usar uma série de softwares de criação (incluindo o Photoshop, que utilizo para as pinturas digitais), e outro de Ilustração – História em Quadrinhos, onde aprendi elementos como anatomia humana, perspectiva, narrativa e técnicas com grafite e nanquim.
Para a graduação, visava duas áreas: ilustração/arte ou biologia. Segui a primeira, e ingressei no curso de Design Gráfico, me formando em janeiro de 2017. Essa formação me preparou, em resumo, para utilizar as soluções visuais e gráficas mais adequadas para cada projeto, o que pratico na própria paleoarte.
Recentemente, você participou do concurso de paleoarte na Paleo Nordeste 2018 e conseguiu 1º lugar no voto do júri e 2º lugar no voto do público na categoria ilustração. Também já participou de várias exposições e concursos na área, dentro e fora do Brasil. Conte um pouco da experiência de participar desses concursos e exposições e qual é a importância desse tipo de evento para os paleoartistas.
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Microraptor.
Vitor: São experiências extremamente gratificantes e honrosas. Ver o próprio trabalho exposto em eventos de paleontologia, tanto os nacionais quanto os internacionais, é algo para o qual não tive pretensão até surgir a primeira oportunidade. Claro, era algo almejado, mas tido como menos acessível e imaginado para um futuro mais distante. Não há preço em mostrar à família, que já incentivava os desenhos e esculturas lá atrás, na infância, os trabalhos expostos e premiados hoje.
Quando os eventos abrem espaço para os paleoartistas, dão a eles uma importante visibilidade e incentivo. É feito então um valioso trabalho divulgando e espalhando a paleoarte ao público, e são feitos conhecidos os nomes por trás das obras, aumentando o reconhecimento desse tipo de arte. Vejo o Brasil especialmente comprometido com a paleoarte, pois vários eventos e reuniões da comunidade paleontológica nacional se preocupam em promover exposições e concursos.
Acredito que muitas pessoas que acompanham seu trabalho sejam também ilustradores ou tenham intenção de iniciar na carreira, muitos sem saber quais passos dar para isso. Que dicas você dá para quem quer se tornar um paleoartista? Apenas ser um bom ilustrador basta e gostar de dinossauros basta?
Vitor: Gostar do tema é o pontapé inicial, pois levará o ilustrador ou escultor a se dedicar à esfera da paleoarte. Buscar o aprimoramento das técnicas artísticas é essencial para que ele exerça o trabalho. Sendo assim, esses são 2 fatores básicos, mas o paleoartista deve carregar também algo ligado ao diferencial dessa arte, que foi comentado anteriormente: o rigor científico. É fundamental, portanto, ter o costume de pesquisar e se manter atento ao avanço da paleontologia.
Além desses fatores, quem deseja ingressar no ramo pode também seguir alguns passos: montar um portfólio (ainda que iniciante, permita que seu trabalho seja visualizado), se atentar aos eventos que promoverão exposições e concursos (eles organizam também, por vezes, palestras, cursos ou workshops de paleoarte) e participar de comunidades virtuais sobre paleoarte e paleontologia (para acompanhar novidades e descobertas, saber a agenda dos eventos, trocar feedback etc.). Essas atitudes ajudam o artista a se aproximar da área, a se aperfeiçoar e a tornar o seu trabalho visto.
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Qianzhousaurus sinensis.
Quais são seus projetos atuais e seus planos futuros? Tem alguma coisa nova vindo por aí que você pode adiantar pra nós?
Vitor: Atualmente estou bastante focado nas esculturas, atendendo encomendas. Entre os modelos e algumas ilustrações, sigo atualizando o portfólio e aprendendo mais da área científica e artística.
Para o futuro, venho aos poucos preparando algo envolvendo a modelagem, em separado das produções comissionadas. Também existem projetos literários e acadêmicos para os quais ilustrei e que estão aguardando finalização para serem publicados. Estou ansioso para ver essas publicações!

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