Entrevista com Rodolfo Nogueira

O Dinosauria Blog entrevistou o recente ganhador de um Prêmio Jabuti, Rodolfo Nogueira, paleoartista e designer. Rodolfo é adepto de uma técnica interessante que mescla habilidades dos dois mundos para dar vida às suas ilustrações, sempre se atentando a tornar críveis suas obras e retratar como seria o cotidiano dessas criaturas. Durante as perguntas, procuramos falar sobre a visão dele sobre a paleoarte e seus projetos.

Rodolfo Nogueira, paleoartista. Acervo pessoal.

Olá, Rodolfo! Antes de mais nada, eu gostaria de agradecer à sua pronta disposição em responder. É muito bom saber que profissionais competentes no que fazem e que recebem reconhecimento pelo que fazem ainda se mantém acessíveis. Parabéns! Depois, achei curioso descobrir que você cursou Desenho Industrial. Quer dizer, nem tanto, porque também cursei Desenho Industrial, só que na UFRJ no Rio, e lá também tinha muita gente que no design que abraçava outra área, usando o Design como ferramenta para acrescentar. De qualquer forma, foi legal descobrir essa parte da sua formação.

Rodolfo: Cara, fico muito lisonjeado com suas palavras e, poxa, que demais você ser designer também! Muito legal! 

Abelissauro, ilustração feita através da técnica Paleodesign por Rodolfo.

Mas entrando nas perguntas em si, eu queria começar perguntando sobre o início dessa sua paixão pela paleontologia. De onde ela surgiu? Veio junto com o interesse por arte? Surgiram na mesma época pelos mesmos motivos ou foram processos dissociados?

Rodolfo: Quando eu tinha 6 anos fui levado a um lugar especialmente mágico. Nesse lugar havia cachoeiras cristalinas, ruínas antigas e dragões gigantes com ossos de cristal! Havia também caçadores de dragões. Eles se intitulavam paleontólogos e chamavam os dragões de dinossauros, o lugar mágico era Peirópolis (um bairro da cidade de Uberaba-MG). Eu fiquei maravilhado e comecei a estudar aqueles tais dragões chamados dinossauros.  Fui uma criança que vivia desenhando pelos cantos até com a marca que a luz deixa no fundo dos olhos, eu tinha muitas dores de cabeça e traços de autismo. Mais tarde, minha mãe, preocupada com minhas dores e ansiedade me matriculou em um curso de desenho. Foi quando descobri que desenhar não era dom e que eu poderia tirar qualquer coisa da minha cabeça e colocar na realidade. Na mesma época, por volta dos 11 anos assisti o filme Dinossauro da Disney e foi como um chamado para desenhar dinossauros. Comecei a fazer todos os trabalhos da escola com o tema. 

Alguém da sua família te incentivou em alguma das duas áreas? Teve alguém responsável por aquele empurrãozinho que foi decisivo na hora de decidir qual profissão você queria exercer?

Rodolfo: Meus pais se separaram quando eu era bem pequeno e minha tia Vânia Nogueira ajudou a me criar e ela me criou literalmente no colo enquanto pintava tecidos e madeiras em seu atelier de artes plásticas. Tive sempre acesso à tintas e lápis que me possibilitavam materializar minha imaginação e ela me ensinava e ajudava. Outra pessoa que ajudou a me criar foi minha avó Odete Lemes Nogueira, ela teve pouco estudo mas foi sempre uma leitora assídua e desde meus 6 anos, ela comprava revistas como Terra, Superinteressante e Globo Rural que deixava à minha disposição e eu devorava em horas contínuas. Peguei meu gosto pelas ciências dela. Minha mãe teve paciência com meus experimentos excêntricos em casa (coisas como fazer um tornado com talco ou clonar uma galinha [risos]) e tanto ela quanto meu pai me deixaram muito livre pra escolher o que eu quisesse como profissão sem nunca ao menos questionarem. Sofreram preocupações no início percebendo as dificuldades de seguir uma profissão tão nova e sem mercado, mas hoje demonstram muito orgulho e carinho. 


Brasilotitan nemophagus, publicado na matéria da Folha de São Paulo.

Falando um pouco mais da parte acadêmica, como se deu o processo de se tornar um paleoartista? Existe um caminho indicado, um curso que é necessário fazer, uma graduação específica? Se sim, ter escolhido inicialmente Design ajudou ou atrapalhou?

Rodolfo: Ainda não existem cursos específicos para paleoartistas, apenas algumas disciplinas de pós-graduação em ilustração científica no exterior. Para se tornar um paleoartista é necessário apenas interesse e disposição de aprender e investigar ao máximo a pré-história e claro, habilidade para desenho. A graduação em Design Gráfico foi uma grande facilitadora do meu aprendizado e desenvolvimento do processo de paleoarte. O Design é uma área intrinsecamente interdisciplinar e funciona muitíssimo bem como ferramenta de outras áreas. Escolhi colocar o design a serviço da paleontologia e acabei desenvolvendo junto ao paleontólogo Dr. Renato Ghilardi e o paleoartista Felipe Elias uma metodologia pra representar os animais extintos de forma cientificamente acurada. Chamamos de Paleodesign que é a junção dos métodos de projeto e conceitos do design às pesquisas mais atuais da paleontologia. Tive a oportunidade de assistir como aluno especial e ouvinte várias disciplinas do curso de biologia e isso me ajudou muitíssimo na criação da metodologia. 

Como foi para você receber o Prêmio Paleoarte Lanzendorf de Ilustração Científica? O que mudou depois disso, que portas se abriram na sua carreira?

 Rodolfo: Eu já havia tido a alegria de receber 7 prêmios no exterior referentes à ilustração de animais extintos, mas o Prêmio Lanzendorf foi diferente, um grande marco pessoal de reconhecimento do meu trabalho pela maior associação de paleontólogos do mundo, a SVP – Society of Vertebrate Paleontology. Isso foi em 2015 com uma ilustração de um dinossauro brasileiro chamado Masiakasaurus. Agora neste ano de 2018 acabam de anunciar no encontro anual da SVP que recebi o Prêmio Lanzendorf – National Geographic de Modelagem Digital e Animação por um curta de animação que fiz para contar um importante estudo de paleontólogos brasileiros em parceria com alemães em que descobriram que o dinossauro do triássico Saturnalia pode ter sido carnívoro, porém está na raiz do desenvolvimento dos gigantes herbívoros. Estou extremamente feliz e lisonjeado! Torço para que este acontecimento ajude nossa comunidade paleontológica à perceber que usar vídeos pode potencializar muito a divulgação de nossas pesquisas. 

Rodolfo ao lado de um pôster em exposição em um shopping em Uberaba.

Você tem um processo de criação peculiar. Poderia descrevê-lo desde a concepção da composição até a finalização da arte?

Rodolfo: O Paleodesign geralmente segue um processo de 4 etapas em que primeiro reúnem-se todos os dados necessários à reconstituição do organismo extinto, desde aspectos e medidas esqueletais como características de tecidos moles como a córnea por exemplo. Depois se reconstrói o esqueleto e aí temos o as dimensões do animal, observando-se então as marcas no esqueleto e comparando com os músculos de animais viventes reconstituem-se os feixes musculares, depois pele e por último o ambiente. O mesmo processo é aplicável a outros grupos de organismos como plantas ou artrópodes com pequenas variações. 

Como você se sente trabalhando com profissionais como o Luiz Eduardo Anelli e Tulio Schargel? Trabalhar com eles acrescentou alguma visão diferente sobre seu próprio trabalho? Fale um pouco sobre os projetos Brasil dos Dinossauros e Megafauna.

Rodolfo: Tive a sorte e privilégio de encontrar muitos mentores no meu caminho que empurraram minha bicicleta até eu tirar as rodinhas e ainda outros que me acompanham liderando a pedalada. Anelli e Túlio são dois desses, profissionais brilhantes com habilidades únicas e por suas escolhas recebi oportunidades surreais como foi o livro “O Brasil dos Dinossauros” (Editora Marte), 5 anos para ser realizado e aprendizados inenarráveis. O livro que eu gostaria de ter lido quando começava minha paixão pelo tema, uma obra sem precedentes sobre nossas riquezas mesozoicas. O Projeto Megafauna é para mim uma revolução na educação já que leva para as pessoas informações valiosas sobre a pré-história do Brasil na época dos grandes mamíferos e primeiros humanos. Túlio encontrou, explorou e fez um premiado documentário sobre os mais de 4 000 fósseis na caverna do Poço Azul na Chapada Diamantina. Ele já levou esse documentário junto à réplicas e ilustrações à 18 municípios do estado de São Paulo e me convidou para ensinar as crianças e adultos a desenharem e esculpirem esses animais. Foram mais de 5500 pessoas

O Brasil dos Dinossauros, projeto de Rodolfo com Anelli, ganhador do Prêmio Jabuti 2018.

O público do blog são pessoas que se interessam por Paleontologia, Paleoarte e Ciência em geral. Muitos deles, e eu me enquadro nessa descrição, gostariam de ter conseguido iniciar estudos nessa área, mas, seja por falta de informação ou pela falta de incentivo à pesquisa nacional, acabou seguindo outras profissões. Que mensagem você deixa para aqueles que gostariam de se tornarem profissionais dentro da área da Paleoarte ou da Paleontologia?

Rodolfo: Levanto com orgulho e certeza a bandeira de que a melhor coisa a se fazer é o que mais gostamos de fazer. Creio ser essa a maneira de a natureza nos contar qual o melhor caminho e como podemos ser mais úteis. Persistência, dedicação, esforço são muitíssimo mais naturais e leves se formos apaixonados pelo tema. Seja Paleoarte, Paleontologia ou qualquer outra área, se nosso coração vibra de verdade e sente o tal maravilhoso como se fosse um chamado, acredito que esse seja o melhor caminho. Seguindo um tema que gostamos junto à uma habilidade que queiramos desenvolver e uma vontade de fazer pelos outros, podemos realizar qualquer sonho de qualquer tamanho.

Portfolio de Rodolfo Nogueirahttp://rodolfonogueira.daportfolio.com/gallery/101276

Book trailer do Projeto “O Brasil dos Dinossauros”https://www.youtube.com/watch?v=w8Iiwnhc-BM

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